O vereador Renato da Farmácia parece ter gostado da ideia de que as pessoas precisam “sair de cima do muro” e declarar abertamente se estão do lado de Lula ou de Bolsonaro. A fala pode até funcionar como provocação política, mas parte de uma premissa equivocada: a de que o Brasil está dividido em apenas dois campos e que todo cidadão precisa, obrigatoriamente, escolher um deles.
A política brasileira é muito mais ampla do que essa disputa. Existem pessoas de esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita. Existem liberais, sociais-liberais, conservadores, socialistas e até anarquistas. Há quem se identifique com uma corrente ideológica, quem prefira não adotar rótulo algum e quem simplesmente avalie propostas e candidatos sem compromisso permanente com qualquer grupo político.
O Brasil tem Lula e Bolsonaro, mas também tem Ciro Gomes, Tarcísio de Freitas, Ratinho Junior e tantas outras lideranças que representam visões distintas de país. Mais do que isso, tem milhões de cidadãos que não se reconhecem integralmente em nenhum desses nomes e que não pretendem entregar sua consciência política a uma figura pública.
Votar não é assinar um contrato de fidelidade eterna com um político. O eleitor pode escolher um candidato em determinada eleição e, na seguinte, optar por outro. Pode concordar com uma proposta de um partido e discordar de várias outras. Pode reconhecer os méritos de um governo sem se tornar defensor incondicional de quem o comanda. Isso não é incoerência: é exercer o próprio julgamento.
A democracia pressupõe justamente essa liberdade. O voto é uma escolha circunstancial, baseada em expectativas, propostas, resultados e circunstâncias históricas. As pessoas mudam de opinião porque a realidade muda, porque aprendem, porque reavaliam prioridades e porque nenhum projeto político merece um cheque em branco.
Transformar toda discussão pública em uma disputa entre Lula e Bolsonaro empobrece o debate e reduz questões complexas a uma rivalidade de torcidas. Em vez de discutir saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura e qualidade dos serviços públicos, passamos a exigir declarações de pertencimento, como se a posição de alguém diante de dois líderes fosse suficiente para definir seu caráter, suas ideias e sua visão de mundo.
E é justamente aí que a crítica se torna necessária. Um vereador, como representante eleito da população, tem todo o direito de defender suas convicções e provocar o debate. O que não se pode normalizar é a ideia de que o cidadão que não escolhe um dos dois lados esteja necessariamente em cima do muro, seja omisso ou não tenha posição política.
Não escolher entre duas alternativas não significa não ter opinião. Às vezes, significa simplesmente não se sentir representado por nenhuma delas.
A pluralidade não é um defeito da democracia; é uma de suas condições fundamentais. Uma sociedade democrática não exige que todos pensem igual, tampouco que as pessoas permaneçam presas às mesmas escolhas para provar coerência. Exige respeito à divergência, liberdade de consciência e disposição para discutir ideias sem transformar adversários em inimigos.
No fim das contas, o problema não está em Lula ou Bolsonaro serem defendidos por seus eleitores. O problema começa quando alguém acredita que essas são as únicas opções legítimas de posicionamento político e que todos devem declarar lealdade a um dos dois.
O eleitor não pertence a político algum. É o político que precisa conquistar a confiança do eleitor e reconquistá-la sempre que necessário.
Renato da Farmácia pode escolher seu lado. Cada cidadão também pode escolher o seu, mudar de ideia, rejeitar os dois ou simplesmente avaliar cada candidatura pelos projetos que apresenta.
Porque democracia não é um teste de fidelidade. E ninguém deveria precisar pedir autorização a um vereador para pensar por conta própria.

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